segunda-feira, 22 de abril de 2013

O BRASIL E UMA PRAÇA DE ALIMENTAÇÃO


  
No último sábado almocei num shopping, e pouco após terminar de comer, fiquei observando ao meu redor. Por alguns instantes pensei que ali estava o ideal de um mundo perfeito: Pessoas diversas, felizes por estar com amigos ou familiares.  Naquele instante eu podia ver desde crianças com seus pais, com aquela risada ofegante após dar voltas ao redor da mesa, como também um grupo de senhoras que aproveitavam sua sobremesa e tiravam fotos, aproveitando a ida ao Shopping.

Naqueles minutos não vi desentendimentos entre motoristas e pedestres, torcedores de Bahia e Vitória, heterossexuais e homossexuais, ou ainda católicos ou pessoas do Candomblé. Todos relaxadamente se alimentavam. Comentei com minha mãe, e sabiamente ela respondeu: “É, mas aqui não tem o pobre”. Junto com o falso mundo perfeito, caiu-me a ficha: “Aqui – na praça de alimentação - tá bom porque não tem conflito”. Nos minutos seguintes lembrei-me do outro shopping, que já foi principal da cidade, mas que hoje é mais frequentado por pessoas de baixa renda, onde alguns aparentam serem aqueles que vez ou outra nos assaltam.

Foi por esse cenário de contraste, entre muitos de nós que crescemos ali, e pessoas de outra realidade que se aproximaram nos últimos anos, usando chinelo, bermuda, regata e boné de aba reta verde cana, que mudamos de shopping. Talvez não por maldade ou preconceito, e sim por instinto, estar com pessoas aparentemente mais parecidas conosco nos transmite mais segurança. Seja lá por qual motivo, não soubemos conviver com o diferente. Além dos méritos do shopping mais novo, esse é um dos motivos de seu sucesso.

Voltando para praça de alimentação, ao meio-dia do último sábado, fico imaginando: Se houvesse algum tipo de aviso que informasse as características da pessoa da mesa ao lado, qual seria a reação? Apesar da semelhança com relação ao comportamento e modo de se vestir, aceitaríamos estar próximos de alguém com opinião inversa a nossa?

Nesse cenário, penso que provavelmente os shoppings teriam de fazer alas separando as pessoas com opiniões contrarias, debates acalorados surgiriam. Vivemos numa ditadura de opiniões, cada vez mais radicais e intolerantes com as outras, que vem por todos os lados. Não cansamos de dizer que seria chato todo mundo sendo igual, mas agimos como se essa humanidade idêntica fosse uma meta.

Há exatos 513 anos o “homem branco” chegava ao litoral do que viria a ser Brasil. Tornamos-nos um povo mestiço, que parece conviver muito bem todas as suas raízes. Mas, somos um país semelhante àquela praça de alimentação, estamos muito bem sem conflitos de ideias, quando surge outra visão de mundo, acaba o que é fundamental: Respeito. Ninguém é obrigado a concordar com o pensamento alheio, mas respeito é um principio básico.

Deveríamos caminhar mais nesse sentido, mas parecemos estar voltando à imposição cultural jesuítica no Brasil Colônia. Para crescermos enquanto país falta todo mundo descer do salto alto, olhar a outra opinião não como inimiga, mas como humana. Conversar não é aceitar ou se rebaixar, é ser educado. Mais meio milênio será preciso para aprendemos isso?


Um comentário:

Bruna Laranjeira disse...

Convivemos em uma sociedade repleta de falso moralismo, na qual a praça de alimentação é um ambiente onde todos aparentam estar felizes e sem problemas uns com os outros porque não tem a necessidade de expor suas ideias, fato esse que vai evitar conflitos com os demais, não devido ao respeito,mas por causa do silêncio.