quarta-feira, 19 de setembro de 2012

DOSE DIÁRIA DE CAFÉ E INFORMAÇÃO


Acorda, toma banho, se veste e vai tomar o café da manhã. O jornal está na mesa, como todos os dias, e ele lê superficialmente as principais notícias. Crescimento econômico, melhoria na educação, hospital inaugurado, viaturas novas para a polícia. Quantas notícias boas, ele pensa. Satisfeito, termina de se arrumar e vai para o trabalho.

Volta para casa reclamando. Primeiro reclama do trânsito, e lembra-se do aumento do preço da gasolina. Depois comenta sobre a incompetência de um de seus funcionários, que mal sabe escrever, apesar de já ter ensino médio completo. Reclama também da saúde pública e diz que precisou dar socorro à sua secretária, que passava mal, e a levou ao hospital recém-inaugurado. Quando chegaram ao local descobriram que não havia médico algum.

Conta também que encontrou o vizinho no elevador, e que juntos eles reclamaram da violência e do aumento no número de roubos de carro no bairro. O vizinho ainda lhe falou que um dia olhava pela janela do apartamento, quando notou uma atitude suspeita de um indivíduo. Não demorou a perceber que se tratava de mais um roubo. Ligou para a polícia e nenhuma viatura, nem nova, nem velha, apareceu.

Revoltado com todos os acontecimentos do dia, ele busca o jornal pela casa e o encontra perto do sofá. Ele sabe que naquele papel não existem mentiras. Tudo que havia lido pela manhã, realmente tinha acontecido. O problema é que o jornal mostrava apenas um lado dos fatos, apenas o lado bom.

Onde estava a crítica? Onde estava a reflexão sobre os problemas que a sociedade vinha enfrentando? Onde estava a realidade, o outro lado da moeda, a imparcialidade dos fatos? Sentou-se exausto no sofá. E, olhando para o jornal, lembrou-se de sua infância. Desde pequeno se acostumara a ver seu pai lendo um jornal pela manhã. Todos os dias essa cena se repetia. E, para ele, o momento mais emocionante, era quando seu pai fechava o jornal e fazia um comentário. Todos os dias seu pai tinha um comentário a fazer.

E foi com seu pai que ele aprendeu qual era o papel do jornalismo na sociedade. Porque os jornalistas têm um poder em mãos: o poder de informar e formar opiniões. Se o jornal não informa, de que outra forma a população saberá o que se passa na sociedade? E se o jornal mostrar apenas o lado bom dos acontecimentos, de que outro modo as pessoas vão ansiar por mudanças?

Seu pai sempre reclamava quando via notícias sensacionalistas, ou extremamente positivas. Sabia que aquilo estava sendo feito visando apenas um aspecto: o financeiro. Porque à medida que ele foi ficando mais velho, seu pai lhe explicou que as notícias também eram um negócio. “De onde você acha que vem o salário dos jornalistas?”, uma vez ele lhe perguntou.

E todas as vezes que ele se deparava com uma situação como aquela, em que a notícia havia sido feita apenas para vender o jornal, seja para o povo, com notícias sensacionalistas, seja para o atual governo, através de notícias extremamente positivas e favoráveis, ele se lembrava de todas as críticas que seu pai fazia.

Sempre do contra, seu pai não acreditava nos jornais que eram muito favoráveis do governo, nem naqueles que noticiavam apenas o que achavam “que ia vender”. Pois achava que isso comprometia a notícia, e que coisas importantes deixavam de ser noticiadas. Incontáveis foram as vezes que viu seu pai cancelar uma assinatura de jornal e começar a ler o concorrente.

Como sempre, seu pai estava certo. Olhou para o jornal em suas mãos e, ainda revoltado, o jogou no lixo. Decidiu que no dia seguinte iria passar na banca de revistas e compraria o jornal concorrente, seguindo o exemplo de seu pai.

Quando já estava na cama, um pouco antes de dormir, lembrou de uma frase que seu pai sempre gostava de citar em seus momentos de revolta. “Jornalismo é oposição; o resto é armazém de secos e molhados”. A frase era de Millôr Fernandes, mas resumia bem aquilo que seu pai lhe ensinou: se o jornal não faz uma critica, uma reflexão, apenas vende qualquer tipo de notícia, não serve para a dose de informação que ele precisa tomar, todas as manhãs, junto com seu café.

2 comentários:

Paulo Leandro disse...

Atualmente, é minha escritora preferida!

Bruna Laranjeira disse...

Texto muito bom Lorena!Realmente é disso que precisamos: do jornalismo crítico e reflexivo, que estimule esses cidadãos tão acomodados com a triste e atual realidade!