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quarta-feira, 19 de junho de 2013

VONTADE DE FAZER HISTÓRIA


As canetas delineiam as letras no caderno, enquanto a professora anota no quadro algumas das revoluções brasileiras mais recentes. Ela pára de escrever e começa a falar sobre cada uma delas, analisando motivos e descrevendo situações.

“Então, os jovens foram às ruas, com os rostos pintados de verde e amarelo, e pediram o impeachment do presidente”, conta a professora. “Depois dos protestos dos ‘caras pintadas’ e da pressão da mídia, o então presidente, Fernando Collor saiu do poder”, finaliza.

Olhos brilhando, os estudantes guardam na memória a imagem dos jovens revolucionários de caras pintadas, bem como o sentimento de admiração pelos mesmos. A aula de História termina, eles colocam os cadernos em suas mochilas e voltam para suas casas.

Prosseguem com suas vidas, cada vez mais imersos em tecnologia, no consumismo, no comodismo. São obrigados a ouvir críticas sobre sua geração acomodada, que perdeu o sentimento revolucionário dos caras pintadas e a coragem dos militantes da ditadura.

Convivem menos com seus amigos, a medida que vão se conectando mais aos mesmos, e tantos outros, através das redes sociais. É através dela também que eles fazem suas reivindicações e criticam o sistema, sem sair de frente da tela do computador.

É, então, que a oportunidade surge. Saem de frente das telas e ganham as ruas. E, apesar de um início marcado por intensa repressão policial, demonstram a coragem e com o sentimento revolucionário desenvolvem um movimento que ganha cada vez mais adeptos.

Começa em São Paulo, se espalha pelo Brasil e, de repente, o mundo todo adere ao movimento. Em sua maioria, afirma que não é por causa dos 20 centavos, motivo que a princípio teria incentivado as manifestações.

Dizem que é pela má qualidade do transporte público, da saúde, da educação, contra os políticos corruptos e os investimentos nas Copas do Mundo e das Confederações, enquanto há tanto para se melhorar no país. Outros, poucos, estão pela baderna e degradação. Alguns, para poder erguer a bandeira de seus partidos políticos. E tem também aqueles que desejam apenas aparecer na mídia.

Mas, grande parte deles é formada por pessoas com vontade de fazer parte da história do seu país. Jovens cansados das críticas feitas à sua geração e desiludidos com a política na nação. Eles querem, sim, que o Brasil melhore e junto com ele melhore a qualidade de vida dos cidadãos. Porém, inspirados no que aprenderam na escola, alguns já se darão por satisfeitos em saber que participaram de um evento histórico.

Independente do motivo que os levou às ruas, o importante mesmo é que a emocionante mobilização não se torne apenas um fato histórico, isolado no tempo, e, sim, que os manifestantes aproveitem esse despertar para a realidade e tragam seus ideais revolucionários para o seu dia-a-dia.

Afinal, não adianta escrever discursos bonitos no Facebook, sair às ruas em protesto, participar de um momento histórico, se, no seu cotidiano, apenas age de acordo com o sistema, exercendo seu individualismo e consumismo exacerbado, mais preocupado em divulgar suas boas ações no Instagram do que propriamente com nas ações em si.  


quarta-feira, 15 de maio de 2013

INDIGNADA


“Vocês acham que eu preciso fazer uma plástica no nariz?”. Foi com esse questionamento que o ator Frank Menezes começou seu monólogo. De acordo com o dicionário, “monólogo” é um espetáculo ou cena em que uma personagem teatral está sozinha e fala consigo mesma. Popularmente, esse termo é utilizado para referir-se a diálogos chatos e cansativos. Mas não existe nada de chato, muito menos cansativo, no monólogo de Frank.

Com roteiro de Cláudio Simões e Djaman Barbosa, além da direção do conhecido diretor teatral Fernando Guerreiro, a peça “O Indignado” é um monólogo que já foi assistido por mais de 160 mil espectadores. E muitos daqueles que já assistiram à peça, voltaram para assistir novamente, levando amigos e familiares.

Foto: Carla Franco
O motivo para tanto sucesso é, principalmente, um texto que gera identificação imediata no público. Afinal, quem é que não vive indignado com o trânsito, com os funcionários públicos, com a obsessão das pessoas pela juventude e beleza ou com o estado de conservação da cidade? Esses são apenas alguns dos temas abordados pela peça e que ganham um aspecto especial graças à interpretação indignada de Frank Menezes. “Motivo para você se indignar não falta, né?”, comentou Frank, em uma visita feita ao seu camarim.

Foto: Carla Franco
O talento de Frank é motivo de orgulho para toda a Bahia. Comemorando 30 anos de carreira, os últimos trabalhos do ator na TV foram na novela “Gabriela”, como o padre Cecílio, e na microssérie “O Canto da Sereia”, como Juarez. Ele também já atuou em peças de sucesso como “A Bofetada” e “Vixe Maria! Deus e o Diabo na Bahia”, na qual ele trabalhou junto com o diretor Fernando Guerreiro. “A gente tem um humor muito parecido. Então, como a gente queria uma linha mestra para poder improvisar em cima, foi muito fácil”, disse Frank, referindo-se ao trabalho realizado em “O Indignado”. E apesar de algumas interrupções por causa do seu trabalho na TV, ele está em cartaz com “O Indignado” desde 2008.

Essa é a última temporada da peça, que fica em cartaz, até 21 de julho, no Teatro Acbeu, Corredor da Vitória, sempre aos sábados e domingos, às 20h. Os ingressos custam entre R$40 (inteira) e R$20 (meia), e podem ser adquiridos no local.

O que me deixa indignada é que mesmo com um preço tão razoável, um texto e direção tão bons e uma interpretação espetacular, muitas pessoas ainda vão perder a última temporada dessa peça. Algumas ainda reclamarão, indignadas, dizendo que Salvador é uma cidade muito fraca no aspecto cultural e que nunca tem nada de interessante para fazer na cidade. Esse é um discurso chato e cansativo, muito diferente do monólogo indignado de Frank Menezes, que deixa o maxilar dolorido de tanto rir.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

ABUSO DE PODER


Gritos de protesto, barulho de apitos, cartazes. Jovens realizam manifestação em busca dos seus direitos e paralisam o trânsito, causando congestionamento de veículos. No meio da confusão dois profissionais se destacam. De um lado a repórter com sua máquina fotográfica. Do outro, o policial militar e sua farda. Ambos exercendo suas respectivas funções.

Desde o princípio da manifestação, a repórter já estava presente. Fora avisada antecipadamente dos planos dos jovens. Entrevistou alguns dos manifestantes e quando eles de fato começaram a protestar, tirou a máquina fotográfica da bolsa e passou a registrar os acontecimentos.

Aos poucos os jovens foram interferindo no trânsito, impedindo que os veículos seguissem caminho. A viatura da polícia chega ao local e orienta carros, motos e ônibus, para melhorar o congestionamento. Conversam com os estudantes e, por se tratar de uma manifestação pacífica, permitem que eles prossigam durante mais algum tempo com o protesto.

Com o olhar direcionado para suas fotografias, a repórter busca os melhores ângulos para narrar, através das imagens, os fatos ocorridos. Tenta fotografar a viatura com os estudantes ao fundo, de modo a ilustrar a presença da polícia; um carro que segue seu caminho com a ajuda dos policiais; um soldado de costas, focando apenas no fundo do colete onde está escrito “polícia militar”... mas, é impedida de prosseguir com seu trabalho.

- Apague agora! – diz o policial para a repórter. – Vamos, apague! Não é para ficar tirando foto da polícia, não! – repete, de forma grosseira.

Foto: Ilustrativa (Reprodução)
Assustada com a reação do policial, a repórter segura seu crachá e a máquina fotográfica, tentando mostrar sua profissão, e como o trabalho que realizava não estava expondo nenhum dos policiais que participavam da operação.

- Mas a foto ... – tenta explicar.
- Não, apague! – repete o policial, levantando o seu tom de voz.

Tenta completar suas frases, explicando suas intenções, sua profissão, seu trabalho, mas por diversas vezes não consegue falar mais do que três palavras. É interrompida, todas as vezes, por um policial que se mostra avesso a um diálogo pacífico e tenta impor sua vontade sem demonstrar respeito nem pela cidadã, nem pela jornalista que se encontrava à sua frente.

Alguns jovens manifestantes começam a interferir na discussão. Pedem para que a repórter obedeça às ordens do PM e apague a foto desfocada, onde pode-se ver apenas as costas de um policial, onde lê-se “polícia militar”. Dividida entre a luta pelos seus próprios direitos e os pedidos dos manifestantes, a repórter decide apagar a foto, não, sem antes, anotar o nome do soldado que a havia tratado de forma tão grosseira.

Desde criança, sempre fora uma garota tranquila e obediente. Também estava acostumada com a farda marrom, o colete pesado e o coturno, que, vez ou outra, ficavam espalhados pela casa depois que seu pai chegava do trabalho. Não só pela sua índole, bem como pela relação que sempre teve com os policiais através de sua própria família, ela sempre teve respeito e admiração por esses profissionais, responsáveis pela segurança dos cidadãos e ordem na sociedade. Não conhecia o abuso de autoridade frequentemente praticado pelos mesmos.

Naquele mesmo dia, em frente ao seu computador, escrevendo e editando fotos para a matéria, ela relembrava o que viveu durante a manifestação. Ainda estava com aquela sensação ruim, típica de pessoas que não gostam de participar de discussões. Mas, apesar da sensação, conhecia seus direitos e sabia que não estava errada em tentar manter um diálogo com o policial e explicá-lo sobre suas intenções, mesmo que depois apagasse a imagem.

Como repórter, ela tinha garantido seu direito à liberdade de imprensa. De acordo com o artigo 5º, inciso IX, da Constituição Federal, “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independente de censura ou licença”. E como cidadã, ela tinha garantido o direito de ser respeitada. Não era por causa de uma farda que outro cidadão poderia infringir seu direito.

Depois de digitar o ponto final, observou sua matéria. Não publicou nenhuma foto da polícia, apenas informou a presença e o trabalho realizado pela mesma. Também não pretendia fazer nenhuma queixa ao comandante, ao seu pai ou a quem quer que fosse. Talvez algum dia pudesse esclarecer o episódio com o soldado, do qual nunca se esquecerá o nome. Mas não valia a pena prolongar e expandir uma situação que já havia passado e tinha sido “resolvida”.

O que valeu a pena foi a experiência vivida, que fez com que ela aprendesse na prática alguns dos desafios da sua profissão. Para evitar discussões, algo que ela detesta, avisará ao comando da operação, na próxima vez que precisasse fotografar a atuação da polícia. Mas ela não irá abrir mão dos seus direitos. Afinal, se todos conhecessem seus próprios direitos e deveres, haveria menos abuso de poder.


quarta-feira, 1 de maio de 2013

TRABALHO NÃO VAI FALTAR


Sentadas em uma mesa da praça de alimentação da faculdade, três alunas conversam sobre seu futuro profissional. Com humor, mas também com preocupação, elas comentam sobre a dificuldade que terão em equilibrar sua realização profissional com a estabilidade financeira. Para elas, essa é uma guerra que se aproxima cada vez mais, à medida que vão concluindo seu curso.

De acordo com uma pesquisa realizada pelo Núcleo Brasileiro de Estágios (Nube), 39,35% dos jovens buscam “sucesso e reconhecimento” ao ingressarem no mercado de trabalho. Em segundo lugar vem a “estabilidade profissional”, com 22,67%. Na pesquisa, a Nube perguntou à quase cinco mil internautas o que seria mais importante em suas carreiras. Em último lugar ficou a opção “bom salário e benefícios”, com apenas 9,5%.

Para Renato Bernhoeft, colunista da revista Valor Econômico, “as empresas deverão rever seus modelos de carreira, estímulos, hierarquia e retenção de talentos”. Mas os jovens também terão que repensar suas alternativas de carreira.

Os que visam à estabilidade profissional e bom salário devem investir no setor de serviços e construção civil, que têm apresentado um aumento na oferta de empregos formais (com carteira assinada). O setor industrial também se inclui neste aumento. E é por esse motivo que tem crescido o número de trabalhadores formados em ensino técnico. A educação profissional teve um crescimento de 75% no Brasil, entre os anos de 2002 e 2010, de acordo com uma pesquisa feita pela Itaú Social. Esse aumento está relacionado ao número de ofertas e ao salário desses profissionais, que recebem um retorno financeiro mais rapidamente do que em outras áreas.

No Brasil, o Ministério do Trabalho e Emprego informou que foram gerados 1,3 milhão de empregos formais em 2012. O dado, baseado no Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), afirma que houve um aumento de 3,43%, comparado a 2011.

Entretanto, segundo um estudo divulgado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), “a taxa de desemprego entre os jovens vai piorar globalmente por causa do contágio da crise do euro para as economias emergentes.” Nas projeções, a taxa de desemprego dos jovens pode atingir 12,9% até 2017.

Em meio aos números atuais e as previsões para o futuro, uma das poucas conclusões que a três estudantes conseguem tirar é que o mercado de trabalho é flutuante e sempre mutável. É por isso que é importante elas terem a mente aberta para as novas possibilidades. Alguns trabalhos podem desaparecer, enquanto outros, que elas nem imaginam, vão surgir.

Atualmente trabalhos relacionados à engenharia de mobilidade, gestão de mídias sociais, entre outros, já estão ganhando cada vez mais espaço no mercado e correspondem a áreas que não tinham sido previstas há 20 anos atrás.

As estudantes encerram sua conversa sobre o futuro profissional e despedem-se. Ainda estão preocupadas sobre como vão conquistar o equilíbrio nas suas carreiras. Mas de uma coisa elas tem certeza: trabalho nunca vai faltar.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

LER: PRAZER ESSENCIAL


Na fila do banco, na viagem de ônibus, na sala de espera do médico. No dia de sol, na areia da praia, na beira da piscina. No dia chuvoso, em meio às cobertas, fugindo do frio. Não importa o momento, os livros serão sempre uma boa companhia.

De acordo com matéria da revista Istoé, o brasileiro lê em média quatro livros por ano, o que representaria um livro a cada três meses. Um número baixo se compararmos à sergipana Alice Vitória, de apenas 10 anos de idade, que já leu cerca de 1500 contos infantis. 

Segundo dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro, o maior índice de leitura é registrado pelo público infantojuvenil, no Brasil. Essa pesquisa, realizada em 2011, ainda trouxe a conclusão decepcionante de que, de modo geral, o brasileiro está lendo menos.

É por esse motivo que datas como 18 e 23 de abril devem ser comemoradas. Criada no Brasil para homenagear o escritor Monteiro Lobato, a primeira trata-se do Dia Nacional da Literatura Infantil. A segunda, comemorada mundialmente, refere-se ao Dia Internacional do Livro.

Alice Vitória, garota já leu cerca de 1500 contos infantis.
Reprodução: Istoé
O essencial na verdade é lembrar-se sempre da importância do incentivo à leitura desde a infância. A menina Alice Vitória, por exemplo, está lançando seu livro “O Monstro de Chocolate”, primeira obra brasileira a ser editada simultaneamente em português, inglês, francês e espanhol, segundo a Istoé. Depois de ler tantos contos, chegou a vez dela de escrever sua própria história.

É interessante que o indivíduo entenda desde cedo o prazer da leitura. Quanto mais uma pessoa lê, melhor ela se expressa. Quantos mais livros, mais conhecimento. A falta de projetos de incentivo a leitura faz com que nos questionemos se o país deseja de fato aumentar o número de seus leitores, ao invés de deixá-los na ignorância em que se encontram, apenas reafirmando a vergonhosa realidade de que o brasileiro não gosta de ler.


Ainda bem que, de vez em quando nos deparamos com “Alices”, que mostram o contrário e provam que esse ainda pode ser um país que enxergue “as maravilhas” da leitura.


                                               


quarta-feira, 17 de abril de 2013

TENTE PERTURBAR MENOS


Mal acordou e já está com raiva. De quem? Nem ela mesma sabe. Acaba sobrando para a primeira pessoa que cruzar o seu caminho. Não precisa de nenhum motivo aparente, muito menos racional, e ela já está bradando, irritada, chateada.

O dia continua. Então, de repente (não mais que de repente), um nó se forma em sua garganta. Sem que consiga evitar, as lágrimas começam a escorrer. E vem a angústia, a melancolia, as dúvidas, a tristeza.

Mas o dia não acaba. As pernas, as costas, a cabeça, tudo dói. E ela sente fome, muita fome. Em casa, esbalda-se no brigadeiro de panela. Na rua, compra todos os tabletes de chocolate que seus recursos financeiros de lhe permitem.

Em todos os meses é assim. Pelo menos uma vez por mês, as pessoas ao seu redor parecem ficar mais irritantes. Sua paciência parece não ser suficiente. O dia parece não ter fim. Os outros não a entendem, enquanto ela mesma tenta compreender o turbilhão de emoções que a fazem mudar de humor a cada fração de segundo.

O nome disso é TPM. Uma sigla que poderia muito bem significar Tente Perturbar Menos e servir de sinal para que homens se mantivessem mais afastados e pacientes durante esse determinado período. Mas, na verdade, essa sigla se refere à Tensão Pré-Menstrual, que afeta cerca de 35% das mulheres, de acordo com Mara Diegoli, médica e coordenadora do Centro de Apoio à Mulher com TPM, localizado em São Paulo.

Em entrevista publicada no site do Dr. Dráuzio Varella, a médica informa que a principal causa das alterações de humor que acontecem tão drasticamente com algumas mulheres, está relacionada à produção de serotonina, que oscila de acordo com o ciclo menstrual. É essa substância responsável pelo humor. Segundo Diegoli, quando ela está em nível alto no organismo, as pessoas ficam mais alegres, já quando esse nível cai, elas ficam de mal-humor e costumam ingerir doces para compensar.

E o motivo para que o chocolate seja o melhor amigo das mulheres nesse período, é porque existe neste doce uma substância chamada teobromina, que estimula justamente a produção de serotonina. Ao comer chocolate elas se sentem um pouco melhores e reduzem o mal estar causado pela TPM.

Por isso, homens, quando notarem que alguma mulher tem agido de forma mais estranha que o normal, com alterações bruscas de humor e extremamente sensíveis, não pensem duas vezes e lhes ofereçam um chocolate. Mas, por via das dúvidas, mesmo após a gentileza, por favor, tentem perturbar menos.

                                           

quarta-feira, 10 de abril de 2013

ALEGRIA DE UMA FOCA


Já passou das 21h e ela ainda se encontra no trabalho. Sentada de frente para o computador e aguardando o chefe fechar o jornal para que possa ir para casa, ela começa a lembrar de seus primeiros dias de “foca”.

Da produção de um currículo cheio expectativas e poucas experiências, até a primeira entrevista bem sucedida, alguns veículos de comunicação já haviam recusado seus serviços. Mas no primeiro dia do primeiro estágio, a força de vontade e o interesse em aprender, superaram a inexperiência de quem só tinha feito reportagens para a faculdade.

Os olhos brilhando com a pauta que acaba de surgir, o medo de telefonar para delegacias, hospitais, assessorias de comunicação e outros bichos de sete cabeças. A superação da vergonha em abordar as pessoas na rua para fazer perguntas escritas num bloquinho de anotações recém-comprado.

A pressa em escrever com a caneta Compactor tudo aquilo que é dito pela fonte. As mãos que ainda não conseguem acompanhar a rapidez das palavras ditas e o olhar que se divide entre uma pessoa desconhecida e o bloquinho cheio garranchos.

A empolgação em escrever as reportagens, de colocar em prática toda aquela teoria aprendida na faculdade. O que? Quem? Quando? Onde? Por quê? Como? A construção do lead com as informações principais. A tristeza em cortar, cortar, cortar tudo aquilo que foi apurado, para poder exercitar o poder de síntese, algo nunca foi o seu forte.

O desespero no fechamento da primeira edição do jornal. A alegria de ver a edição fresquinha. O sorriso ao apontar seu nome assinando a reportagem. O desapontamento em observar os erros cometidos. A esperança de cometer menos erros e mais acertos da próxima vez.

Olha para o relógio. Já são mais de 22h. O chefe ainda não fechou a edição. Ela se mantém disponível para ainda escrever textos, corrigir erros, escolher fotos. No meio jornalístico “foca” é o nome utilizado para se referir ao estagiário, ou aquele jornalista recém-formado, que escorrega de vez em quando, devido à falta de experiência. Apesar de ainda ser estagiária, sente que tem se afastado cada vez mais da condição de “foca” à medida que vai ganhando conhecimentos na área e desenvolvendo sua futura profissão.

Mas, no dia seguinte, ao sujar suas mãos com a tinta do jornal que acaba de chegar da gráfica, ela ainda vai olhar para o seu nome impresso ao lado das matérias que produziu. Os olhos vão brilhar. E ela vai ter aquele orgulho típico de uma “foca” que observa a primeira reportagem publicada.


quarta-feira, 3 de abril de 2013

MAIS DESCONTROLE, MENOS VIDAS


Basta sair na rua, seja de moto, de carro, de bicicleta, a pé ou de ônibus, para ver o caos no trânsito. Além dos problemas estruturais e da grande quantidade de veículos nas ruas, que geram intensos engarrafamentos, a falta de educação, muitas vezes justificada pelo estresse, tem sido um dos principais problemas enfrentados.

Na última terça-feira (2), mais um caso relacionado à falta de educação no trânsito chocou a sociedade brasileira. Sete pessoas morreram após um ônibus cair de um viaduto no Rio de Janeiro. Segundo testemunhas, momentos antes do acidente, um passageiro teria discutido e agredido o motorista, que perdeu o controle do veículo e acabou despencando do viaduto.

Inicialmente observa-se a falta de educação do condutor do ônibus. De acordo com pessoas que presenciaram o acidente, ele dirigia em alta velocidade, não teria parado em pontos pedidos pelos passageiros e teria agredido verbalmente um dos passageiros. Sem falar que o ônibus que ele dirigia estava com o licenciamento de vistoria do Detran vencido e acumulava 46 multas, incluindo 12 por avanço de sinal e outras 14 por excesso de velocidade.

Depois do motorista não parar por tempo suficiente em um ponto, um passageiro teria se exaltado, pulado a catraca, discutido com o condutor e em seguida lhe dado socos e um chute. O histórico desse passageiro também não era nada bom. De acordo com a polícia, o estudante de engenharia, de apenas 25 anos, é acusado de lesão corporal em outras duas ocasiões.

Sergio Moraes / Reuters
Vários fatores tiveram influência na tragédia, mas o comportamento desses dois protagonistas foi o maior culpado. O delegado que cuida do caso, já pediu a prisão preventiva de motorista e passageiro, que devem responder por homicídio culposo, quando não há intenção de matar.

Quantas vezes já nos deparamos com motoristas estressados ou com passageiros grosseiros que discutem com os condutores ou cobradores dos ônibus? Quantos de nós já não fomos essas pessoas que, atrasadas para o trabalho ou ansiosas por chegar em casa, brigamos no trânsito? Quantas, nesse momento de estresse, lembram que suas atitudes podem prejudicar a vida das outras pessoas?

O que falta para reduzir a agressividade e a falta de educação é aprender a viver em sociedade. Quando o indivíduo se coloca no lugar do outro, ele reduz as chances de tomar uma atitude que venha a prejudicar não só o próximo, como ele próprio.

Se o motorista tivesse respeitado o pedido do passageiro e parado no ponto, se o estudante tivesse pensado nos outros passageiros e não tivesse agredido o condutor, sete famílias não estariam chorando a perda de entes queridos. E outras dez não estariam dentro de hospitais, aguardando uma boa notícia, enquanto seus parentes se recuperam de seus ferimentos. Quatro delas permanecem em estado grave. E se o comportamento no trânsito não for tratado com a gravidade que ele merece, os números só tendem a aumentar.


quarta-feira, 20 de março de 2013

PAI DO JORNALISMO LITERÁRIO NO BRASIL


A arma é apontada em sua direção. O dedo pressiona o gatilho, ouve-se o som do disparo, ele sente a bala perfurar seu corpo. Não poderia ter imaginado que depois de tudo que aconteceu nos seus 43 anos de vida, depois de ter feito a cobertura de uma guerra, ter sofrido com pneumonia, tuberculose, malária, ele morreria justamente pelas mãos do amante da sua mulher.

Ocupou a cadeira de nº 7 da Academia Brasileira de Letras, chegou a atuar na presidência da academia, mas por curto período; tornou-se sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro; trabalhou na Superintendência de Obras Públicas de São Paulo; aposentou-se como tenente do exército; atuou como jornalista correspondente para o jornal ‘O Estado de S. Paulo’; imortalizou seu nome com a publicação de um dos clássicos da literatura brasileira, “Os Sertões”.

Publicado em dez idiomas, seu livro narra a Guerra de Canudos, que aconteceu em 1897 no interior da Bahia e foi o primeiro acontecimento histórico brasileiro a ter cobertura diária da imprensa. Em “Os Sertões” ele destaca a psicologia do sertanejo e seus costumes, com riqueza de detalhes. Depois da experiência no sertão baiano, ele apresenta projetos que incentivam a criação de açudes para resolver o problema das secas no Nordeste. Enquanto ainda era vivo, seu livro chegou a ter três reedições.

Por ter sido baseado em reportagens, que inicialmente foram publicadas no jornal ‘O Estado de S. Paulo’, “Os Sertões” é considerado o primeiro indício do jornalismo literário. Antes mesmo de “A Sangue Frio”, de Truman Capot, que teria sido publicado anos depois, e marcado o início do New Journalism – chamado de Jornalismo Literário no Brasil, por misturar técnicas jornalísticas com elementos literários.

Euclydes da Cunha nasceu no Rio de Janeiro em 1866. Casou-se com Ana Emilia Ribeiro aos 24 anos de idade, pouco antes de se formar no curso de Engenharia Militar. Durante o casamento, Ana deu à luz seis crianças, sendo que duas delas não haviam sido geradas com seu marido e sim com o cadete Dilermando de Assis, seu amante.

Ao atirar em Euclydes, Dilermando tirou a vida não só do pai que criou o seu filho, Luís Ribeiro.  Naquele dia, 15 de agosto de 1909, o cadete do Exército silenciou o engenheiro, o poeta, o repórter, o escritor, o pai do jornalismo literário no Brasil.


quarta-feira, 13 de março de 2013

A PIADA PRONTA DO PAPA ARGENTINO


Dos campos de futebol para a Basílica de São Pedro, no Vaticano, brasileiros e argentinos disputaram mais um título. Mas, desta vez, os hermanos levaram a melhor. Foi decidido nesta quarta-feira (13), que o cardeal que vai substituir o Papa Emérito Bento XVI, não é Dom Odilo Sherer, como esperavam os brasileiros, e sim Jorge Mario Bergoglio, um argentino.

A decisão do conclave foi aguardada não só pelos católicos, mas por todos aqueles que viam a possibilidade de ter seu país representado na história do Vaticano. Da fumaça branca, que anunciava que a Igreja havia escolhido o papa, até a primeira aparição de Francisco, como o hermano quer ser chamado, internautas de todo o mundo expressavam seus comentários sobre o assunto através das redes sociais.

No twitter, a hashtag #FumaçaBranca ocupou primeiro lugar entre os tópicos mais comentados no Brasil. Nos trending topics mundiais, as hashtags #HabemusPapam (“temos papa”, em latim) e #whitesmoke, também estiveram presentes. Mas foram os comentários bem humorados sobre a antiga richa entre brasileiros e argentinos que monopolizaram o feed de notícias no Facebook e a página inicial do Twitter.

“Hoje o Vaticano nos deu uma piada pronta que vai encher o saco nas redes sociais de tanto que vão fazê-la nos próximos dias: Papa Argentino”, tuitou um brasileiro. “É... rezar para a Argentina perder na Copa vai ser mais difícil agora”, disse outro internauta. Até mesmo personalidades, como o comentarista esportivo, Milton Neves, aproveitaram o momento para fazer piada com os hermanos. “Em sua primeira decisão o Papa Bergoglio mudou o nome de Missa para Messi em todas as igrejas do mundo...”, publicou Milton, em seu perfil do Twitter.

O novo papa, que já foi apelidado de Chico pelos brasileiros, também foi inspiração para vídeos humorísticos e montagens engraçadas. Entre eles, destacam-se o clipe do “Papa Americano” e a foto do “Papa Latino”.

      
Apesar dos comentários bem-humorados terem predominado, também houve aqueles que se lembraram da importância da escolha do novo papa para a sociedade, como o deputado Marcelo Nilo. Outras personalidades, o deputado Jean Wyllys e a apresentadora Astrid Fontanelli, aproveitaram para criticar algumas posições do papa que já foram divulgadas.

O humorista Rafinha Bastos por sua vez, sintetizou as opiniões dos internautas em menos de 140 caracteres: “Papa para o mundo: uma figura importante, poderosa, influente e única. Para a Argentina: apenas mais um argentino”, publicou em seu twitter.

quarta-feira, 6 de março de 2013

UMA PLAYLIST PARA UM CHORÃO



Ontem (5) o mundo todo foi dormir de luto após a morte de Hugo Chavez, presidente venezuelano. E hoje (6), infelizmente, o Brasil acordou em luto, por causa da morte de Chorão, vocalista da banda Charlie Brown Jr.

Obviamente, o cantor possuía bem menos notoriedade que o presidente. Alguns internautas, inclusive, criticaram a atitude de seus amigos que compartilhavam homenagens ao roqueiro, e pareciam não se lembrar da morte do político.

A morte de Chorão ficou entre os assuntos mais comentados no Twitter  e durante todo o dia diversos usuários do Facebook compartilharam trechos de músicas, textos e fotos do cantor, que morreu aos 42 anos de idade e foi o único integrante da Charlie Brown Jr. que permaneceu na banda desde seu início, na década de 90, até os dias atuais.

Durante anos, era a voz de Chorão que anunciava o início da novela “Malhação” ao cantar “tive pensando em me mudar, sem te deixar pra traz, yeah (...)”. Ele esteve presente em algumas edições do Festival de Verão, escreveu o roteiro do filme “O Magnata” (2007). Lançou nove discos de estúdio, dois álbuns ao vivo, duas coletâneas e ganhou dois Gramys Latinos.

Ele também foi um grande incentivador do seu esporte preferido: andar de skate. Chorão administrou marcas de skate, viabilizou a realização de grandes eventos de skate no Brasil e criou o Chorão Skate Park, na cidade de Santos.

O cantor, que passou por várias dificuldades, como a separação dos pais, na infância, e a separação da sua esposa, há seis meses, apresentava quadros de depressão e agressividade, com participação em polêmicas e envolvimento com drogas.

Ele foi um ser humano, como qualquer outro, cheio de fraquezas e algumas virtudes. Nem herói, nem vilão. Mas, independente da causa da sua morte ou de qualquer outro ponto negativo da sua vida, é inegável o fato de que ele fez parte da vida de muita gente através das suas canções.

Recentemente a música “Céu Azul” ficou entre os maiores sucessos do ano passado. Já a música “Proibida Pra Mim” chegou a ser regravada numa versão acústica por Zeca Balero. Sem falar na fase mais light do cantor, quando ele escreveu canções como “Ela Vai Voltar” e “Só Os Loucos Sabem”. Além daquelas que inspiraram jovens por todo o Brasil como “Dias de Luta, Dias de Glória”.

Não importa se ele é considerado herói, se é considerado vilão, se todos os compartilhamentos nas redes sociais foram feitos por fãs ou posers, se ele merecia mais homenagens do que o presidente venezuelano ou não. O que importa é que Chorão deu sua contribuição ao rock nacional e que suas músicas continuarão presentes nos corações e playlists de muita gente. E como publicou uma usuária do Facebook: “Hoje os chorões somos nós, e o céu azul é todo dele”.

*Uma Playlist Para Um Chorão: clique aqui se você quer conhecer algumas das músicas citadas na postagem ou apenas matar a saudade.


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

A PRESSA É INIMIGA DA APURAÇÃO


A pessoa entra em seu perfil em uma rede social e na página de atualizações encontra diversos compartilhamentos de pessoas chocadas com uma informação que acabara de ser divulgada. De acordo com os amigos on-line, um bebê havia sido sequestrado por dois homens em uma motocicleta, durante um congestionamento em Salvador, na noite de terça-feira (26).

Publicada inicialmente no Instagram, a notícia correu as demais redes sociais, como Facebook e Twitter, até chegar a um site que abrange notícias de todo o estado da Bahia. O primeiro e, até então, único site a trazer informações sobre o assunto, contava que testemunhas presentes no congestionamento presenciaram a ação dos bandidos que “arrancaram a criança de dentro do carro”, “fugiram com o bebê no braço do carona da moto” e que “a mulher que dizia ser mãe da criança saiu do carro e pediu socorro aos motoristas que transitavam pela via”.

Sites de jornais importantes, como o “Correio”, perderam a chance de divulgar a notícia com rapidez, e, no entanto, puderam divulgar a notícia correta. De fato, dois homens em uma motocicleta haviam retirado a criança de um carro e saído rapidamente. Assim como, a mãe da criança havia pedido socorro aos demais veículos. Entretanto, não se tratava de um sequestro, e sim de um resgate.

A matéria do “Correio” esclareceu a situação ao trazer o depoimento de outra testemunha, que viu quando a mãe do bebê pediu socorro para seu filho que estava passando mal. Como o trânsito estava congestionado, a solução encontrada foi entregar a criança ao motociclista que a levou para um hospital próximo ao local.

Esse caso, que aconteceu na noite de terça (26) e foi esclarecido nesta quarta (27), é um exemplo claro da importância da apuração no jornalismo. Se o “Correio” tivesse publicado a informação sem ter apurado o fato, sem dúvida ela chegaria ao alcance de mais pessoas, que ficariam abismadas com tal situação. Segundo o Aurélio, apurar significa “saber ao certo; averiguar”. E um dos princípios do jornalismo é publicar a realidade vivida pelos cidadãos e deixá-los informados sobre o que acontece na sociedade.

O problema é que, na busca pela notícia inédita, os veículos de comunicação, principalmente sites de notícias, costumam só apurar melhor a matéria após esta ter sido publicada. No intuito de não deixar passar a oportunidade de serem os primeiros a publicarem, os sites acabam divulgando fatos distorcidos, como no caso do resgate do bebê.

O site que foi o primeiro a divulgar, publicou a notícia correta no dia seguinte, mas a informação já tinha sido visualizada e comentada por diversas pessoas. Apenas na página do Facebook do mesmo, 73 pessoas já haviam compartilhado a notícia, acreditando na veracidade dela.

Erros acontecem, mas se a apuração continuar desta forma, com a pressa seguindo em primeiro lugar, à frente da averiguação, a saúde do jornalismo não andará nada bem. O bebê, por sua vez, foi transferido para outro hospital, mas seu estado de saúde e o motivo do atendimento não foram divulgados. Melhor não divulgar do que publicar uma realidade distorcida.